Heloneida Studart

O poder desarmado

(Foto: Acervo O Globo/Divulgação)

Conheci Heloneida Studart hoje, por um texto que compartilho ao final deste. Pesquisando sobre a jornalista, escritora, radialista, redatora e ex-deputada, aprendi que seu engajamento com as letras e a causa dos direitos das mulheres vêm de lá de trás e que sua trajetória ficou marcada em 1974, com o lançamento do livro Mulher, objeto de cama e mesa com 53 páginas de textos e que hoje está na 27ª edição, com quase 300 mil exemplares vendidos.

Nascida em Fortaleza, foi alfabetizada por uma empregada, filha de índios, que a ensinou em segredo. De família abastada, frequentou o Colégio Imaculada Conceição de Fortaleza. Aos nove, começou a escrever seus textos.

Colaborou com crônicas para O Nordeste, causando revolta na família, e, em 1949, mudou-se para o Rio, onde cursou Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A sua estreia foi a publicação do romance A primeira pedra, tendo como madrinha literária Rachel de Queiroz, que a encorajou para que tornasse públicos seus escritos.

Trabalhou em veículos como Correio da Manhã, revista Manchete, Tribuna da Imprensa, O Globo e O Pasquim. Atuou também como radialista e como comentarista do programa Sem Censura, da TV Cultura. Lançou 17 livros em sua trajetória (um em parceria). Em 1978, iniciou carreira como parlamentar, tendo sido eleita 6 vezes como deputada.

Multi-talentosa e mãe (seis filhos do sexo masculino e uma filha adotiva), ela faleceu, aos 82 anos, de parada cardíaca, no dia 3 de dezembro de 2007, no Rio de Janeiro.

Heloneida foi considerada uma das 100 brasileiras mais importantes do século XX e cotada entre 1000 mulheres para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz.

Para fechar, deixo o texto que hoje chegou a mim e me tocou profundamente.

Para ler e refletir.

O poder desarmado*. Por Heloneida Studart
Fonte: Jornal do Brasil, 06/02/2001

Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinha da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre e a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres. Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas.

Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens. E, com isso, Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres; as baixinhas, as gordas, as de óculos; um sentimento de perda de auto-estima. Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composta de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torna-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.

Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derrama-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência. É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz.

E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d’água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas. São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer à ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.

Viva Rita Lee que canta:

“nem toda feiticeira é corcunda,

nem toda brasileira é bunda

e meu peito não é de silicone…

sou mais macho que muito homem”

Fonte: Cecília Cunha, em Uma escritora feminista: fragmentos de uma vida, Universidade Federal de Santa Catarina.

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