Mete a colher

REFLETE
4 min readFeb 5, 2019

Como o app que já conta com mais de 15k downloads e 8k mulheres ativas ajuda no combate à violência doméstica

As mulheres do Mete a Colher

Uma relato de agressão por uma mulher, por parte de seu parceiro, via Whats App foi o ponto de partida para a criação do Mete a Colher. A rede, que nasceu durante um evento de empreendedorismo e tecnologia, busca uma solução de voz, escuta e acolhimento para a violência doméstica.

Conversamos com Renata Albertim, uma das criadoras, pra saber mais sobre o app.

REFLETE: Conta mais sobre como e quando nasceu o projeto?

METE A COLHER: O Mete a Colher nasceu em um evento de empreendedorismo e tecnologia, chamado Startup Weekend Women, em marços de 2016, em Recife/PE. Na época éramos 9 e Emily, uma integrante da equipe, sugeriu desenvolver alguma plataforma para ajudar mulheres que viviam violência doméstica, porque ela fazia parte de um grupo no Whats App onde uma mulher gravou um áudio do companheiro a agredindo e todas as outras pessoas que faziam parte desse grupo não souberam como ajudar. Sendo assim, começamos a pensar soluções para esse problema. O evento durou um final de semana e nesse tempo fomos em delegacia da mulher, conversamos com pessoas na rua, fomos em ONGs com o objetivo de entender a violência doméstica. Aos poucos fomos percebendo que criar uma rede de apoio entre mulheres seria algo relevante, visto que um dos grandes problemas enfrentados pelas mulheres que vivem um relacionamento abusivo é a falta de apoio. Enquanto o app não era lançado, nós atendíamos (e ainda atendemos) muitas mulheres que vem conversar com a gente via inbox, nas redes sociais. É possível contabilizar mais de 2 mil mulheres que conversaram com a gente. Isso foi de extrema importância para entendermos as particularidades que existe nesse processo de querer romper uma relação tóxica.”

REFLETE: E como ele funciona, na prática?

METE A COLHER: A rede funciona através de um aplicativo mobile, que conecta diretamente mulheres que precisam de ajuda com outras que podem oferecer apoio. A mulher que precisa de ajuda vai acessar o app na aba “Preciso de Ajuda”. Por lá, ela vai relatar um pouco o que está acontecendo e enviar esse pedido para as outras mulheres que estão dispostas a ajudar. As mulheres voluntárias acessam o app e vão na aba “Quero Ajudar”. A interface vai apresentar três opções para mulheres que se cadastrarem para colaborar: apoio emocional, ajuda jurídica e oportunidades de trabalho — o que pode ser libertador para quem depende financeiramente do parceiro. Nessa aba, vão aparecer todos os pedidos de ajuda que foram feitos. Então, é só a mulher voluntária escolher um pedido para abrir uma conversa. Os pedidos que vão aparecer para ela estão relacionados ao que ela cadastrou. O app é acessível apenas a mulheres, e as conversas trocadas pelas usuárias são apagadas em 24 horas, para garantir sua segurança e privacidade.

REFLETE: Tenho uma amiga que sempre diz que nosso problema é ter deixado de nos meter em situações onde claramente alguém precisa de ajuda. E ela me falou isso porque justamente tinha passado por uma situação onde presenciou — e se meteu, com a irmã — uma briga de casal, onde o homem estava sendo extremamente agressivo com a mulher. A que você acha que se deve essa apatia, falta de sensibilidade e empatia de muitos, que é tratada como “não quero me meter onde não sou chamado”?

METE A COLHER: Sempre fomos educados a pensar que os problemas internos do lar e da família são íntimos e que não devemos nos envolver. O ditado popular “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” é um reflexo dessa forma de pensar. Outro grande problema, é a gente ter a ideia de que as mulheres são propriedades dos seus maridos e companheiros e, o pior, que, se ela está em determinada relação, é porque gosta de sofrer. Depois de muitos anos, muitos estudos e pesquisas de cientistas sociais, foi comprovando que violência contra a mulher é um problema de saúde pública.

Toda e qualquer mudança social é um processo lento e de transformação cultural. Sendo assim, ainda encontramos muita resistência das pessoas em querer se envolver em uma situação de violência de uma família. As mulheres também demoram a despertar e ver que estão vivendo uma relação abusiva. São muitas as barreiras na hora de enfrentar uma denúncia.

Apesar de algumas dificuldades, aos poucos podemos perceber que isso vem mudando de forma positiva. Estamos quebrando barreiras e desmistificando um pouco a ideia de relacionamento abusivo. Estamos ainda num começo, mas já é possível ver algumas mudanças positivas.

REFLETE: Vocês criaram um app onde mulheres ajudam mulheres. Como vocês vêem o papel do olhar acolhedor na sociedade?

METE A COLHER: Acho que temos um papel enorme e muito importante nesse processo de mudança para um mundo melhor. Nós mulheres estamos mostrando cada vez mais que somos capazes que fazermos grandes e positivas mudanças na sociedade. Somos mais de 50% da população no Brasil e isso é muito significativo. Quando uma mulher ajuda ou cuida da outra, nenhuma fica sozinha e assim a gente avança.

Avante, Renata, e sucesso!

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